quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O Naufrágio do Karina II

A tarde estava morna. Soprava uma leve brisa, refrescando aqueles que
se achavam por ali.
A natureza, pródiga neste início de primavera, deixava as margens do
lago, floridas. Ouvia-se, vindo da mata que ladeava o lago, o canto
de alguns pássaros vespertinos e os ruídos dos pequenos animais
silvestres que habitavam árvores e tocas na pequena floresta.

Numa das margens, alguns homens aproveitavam para jogar conversa
fora, outros jogavam vôlei, futebol, dominó ou damas e os demais apenas
aproveitavam a grama para, deitados ou sentados, descansarem.
Algumas mulheres, assim como fazem os homens, formavam grupinhos e
entre risos e gargalhadas, trocavam confidências e intimidades,
possivelmente rindo dos próprios maridos e namorados.

As crianças aproveitavam da melhor forma a liberdade que seus pais lhes
davam, brincando. Umas corriam pelo campo gramado soltando gritos de
alegria, inventando novas brincadeiras ou relembrando aquelas que
conhecemos bem. Outras empinavam pipas e arraias ou simplesmente
ficavam deitadas tentando adivinhar os desenhos que as nuvens formavam
antes de se desfazerem. Algumas mais acomodadas brincavam com jogos
de cartas, de tabuleiros ou apenas apreciavam as demais crianças no seu
corre-corre alegre e descompromissado.

O alarido das conversas era intenso, mas não incomodava a ninguém,
afinal, durante toda a primavera e o verão, aquele povo estava sempre
por ali, nos finais de semana.

Raramente alguém se aventurava a banhar-se, pois todos sabiam que,
embora a temperatura estivesse agradável, a água estava quase gelada.

Um pouco mais adiante, sentados próximos da água, alguns homens
discutiam sobre navegação, assunto preferido deste grupo, enquanto
apreciavam alguns barcos que navegavam ao largo.

De repente o céu cobriu-se de grossas nuvens, oriundas do litoral e
escureceu completamente. O vento passou a soprar com mais força,
aumentando a cada minuto sua velocidade e uma chuva fina e fria começou
a cair.
O povo correu para o bosque, procurando abrigar-se melhor, embora isso
fosse impossível. A tempestade não tardou.
O vento sibilava aos ouvidos que não aceitaria desafios e a chuva
tornou-se torrencial. O lago parecia querer subir pelas margens.

As ondas avolumavam-se, ameaçando as embarcações que insistiam em
permanecer ao largo. Quase todas foram trazidas ao pequeno ancoradouro,
restando apenas ao "Karina II", um bonito veleiro de três mastros,
retornar. Mas pareceu aos homens que apreciavam a luta do barco para
vencer as ondas, que não iria conseguir.
O veleiro era manobrado para tentar transpô-las, mas estas batiam nas
suas laterais, fazendo-o adernar, ora para um lado, ora para outro.
As ondas lavavam o convés, levando tudo que estava solto ou mal
amarrado. O barco embicava nas vagas e saía adiante. As velas já não
tinham nenhuma serventia. Encharcadas, eram apenas empecilho para que
o veleiro permanecesse à tona.
Alguns dos homens que apreciavam essa luta desigual apostavam entre
si que o barco logo soçobraria. Era como a batalha da formiga contra
o elefante que teimava em pisar, diariamente, o formigueiro.

Uma onda mais forte e maior que as demais, por fim, fez o barco virar
e encher-se de água, iniciando seu naufrágio conforme previsto por
aqueles que apostaram neste resultado.

Um dos homens atirou-se ao lago e nadou em direção ao Karina II.

Após algumas braçadas, alcançou a embarcação. A pegou por um dos
mastros e ao verificar que ali não era tão fundo, ficou de pé e,
levantando o barco pelo casco, o emborcou para retirar toda a água do
seu interior e, com ele numa das mãos, retornou andando para a margem,
onde os amigos o esperavam. Ouviram-se gritos de vivas, aplausos e o
recém-chegado, sorrindo, exclamou:

- Levei quatro meses para fazer esta réplica e não iria perdê-la
assim tão fácil!

FIM

Pegadas de Sangue

Eram quase onze horas da manhã quando o telefone da delegacia tocou.
Ao atendê-lo, Dick desejou que fosse a comunicação de um crime para
colocar um pouco de movimento naquele dia monótono.
Era sua esposa. Ele desligou o telefone, avisou aos colegas que
precisava ir em casa e saiu apressadamente.

Quando o policial chego à cozinha de sua casa, a cena que viu não era
a que esperava ver no dia do seu aniversário.
Havia sangue pelo chão que ia até a porta dos fundos, bem como nas
paredes e no azulejo da pia, sobre a qual repousava uma peixeira ainda
com a lâmina suja de sangue.
O fogão estava quente, comprovando que fora usado há pouco e havia uma
panela sobre uma das grelhas com cerca de um litro de sangue dentro.

Dick, acostumado com cenas semelhantes, apenas pegou o celular e ligou
para a delegacia, enquanto observava que as pegadas no sangue tinham o
tamanho do pé de sua esposa.
Em questão de minutos uma viatura parou diante de sua casa e dela
desceram o delegado, o perito, o escrivão e um policial.

- Dick, Dick - gritou o delegado -, onde você está?

- No quintal, Doutor Baretta! Entrem! - gritou Dick em resposta.

Os policiais entraram na casa e passaram pela cozinha, deixando no chão
mais algumas pegadas de sangue e saíram no quintal, sem demonstrarem
em seus semblantes os sentimentos que iam em seus corações, afinal,
cenas com sangue são comuns na rotina de um policial.

Os quatro policiais aproximaram-se do regato que cortava o quintal da
casa do amigo e, surpresos, o viram agachado junto à esposa, com uma
faca na mão, ajudando-a a depenar três galinhas que seriam o almoço
daquele dia e para o qual Dick os convidara.

- Oba! Hoje tem galinha ao molho pardo no almoço! - exclamou o perito.

FIM

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Canto a um adeus

Luís Campos (Blind Joker),

A gente conhece alguém
pensa que é especial
entrega-lhe a chave da porta
e dá-lhe nossa liberdade!

Ela invade nosso quarto
come nossa comida
usa nosso sabonete
mistura suas roupas às nossas
e deixa seu cheiro em nosso corpo!

Um dia ela se vai...

Deixa nossa chave
deixa seu cheiro
sua voz, seu canto...

Mas não leva a saudade!

Nunca mais há de voltar
pois a volta é dolorida
os erros não serão esquecidos
embora a mágoa seja contida!

Mas não percamos o calor
a ternura da amizade
a pureza no olhar
a meiguice no tocar
uma palavra de carinho
desejando-lhe felicidade!

E a lágrima não contida
desce até nossos lábios
e alimenta nossa dor!


FIM

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Super Blind, em... Como tudo começou! (Série)


Luís Campos (Blind Joker)

Super Blind, O Herói de Bengala.

Mais inteligente que uma loura... mais ranzinza que uma sogra... mais veloz que o Rubinho... mais forte que o Maguila e mais cego que o Mister Magoo!


Em um ano qualquer de um século idem, andando pelas ruas e ladeiras da Cidade de São Salvador da Bahia, acompanhado do seu fiel cão Morcego, um rapaz cego chamado Lui Macpos, percebeu que seu cão e escudeiro farejava algo em uma das esquinas do Pelourinho com a Baixa dos Sapateiros. Pelos latidos do seu cachorro, deveria ser algo muito estranho.

O rapaz decidiu então abaixar-se para averiguar o que teria chamado a atenção de Morcego. Ao apalpar o chão,tocou numa terrina de barro com algumas coisas dentro. Levou a mão ao interior desta e foi descobrindo as coisas que haviam ali: charutos, farofa de dendê, uma garrafa de cachaça, velas, moedas e uma galinha (Que mais tarde soube que era preta, como manda a tradição dos ebós!). Não se espantou por encontrar um bozó naquela esquina, pois isso é coisa comum nesta terra de tantos Deuses e Santos! Percebeu, ao ouvir um fraco "có-có-có-có" que a galinha agonizava. O ceguinho apalpou a ave galinácea e notou que, no pescoço desta havia um corte, do qual corria um fio de sangue que em breve lhe tiraria a vida.

Condoído com a situação da pobre ave, meteu uma das mãos sujas de sangue e azeite de dendê em um dos seus bolsos traseiros e, pegando seu lenço quadriculado, fez um torniquete logo abaixo do corte e assim o sangue imediatamente parou de correr. Pegou a galinha e a colocou debaixo do braço, levando-a para casa. No ônibus
ouvia os cochichos e sabia que era sobre ele que comentavam, mas pouco se importou com isso... quem tem boca é pra falar!

Ao passar pela rua em que morava, alguns gaiatos tiraram sarro com sua cara, entre risos dos demais:

Gaiato 1 - Hoje vai ter canja, hein ceguinho! Hahhahahhahahha

Gaiato 2 - Olha lá! O cego vai levar uma "galinha" pra comer em casa! Hahhahahhahahhah hahhahahhaha

Gaiato 3 - Na certa, um dos dois está doente! Hahhahahhahahhahah

Gaiato 4 - É que ele é goleiro do seu time e pegou este frango hoje! Hahhahahahhahahha hhahahahha

Todos - Hahahaha hihihihihi kkk rê rê rê rê woo woo woo quá quá quá!

Como Lui era um "boa praça" e levava a vida na esportiva, apenas sorriu com a brincadeira dos amigos e vizinhos. Assim que conseguiu encontrar a fechadura, meteu-lhe a chave e entrou em casa. Tirou a roupa e apenas de cueca (Para não constranger a galinha!) entrou no banheiro e deu um banho frio na ave, lavando cuidadosamente o ferimento no pescoço dela. Enxugou com carinho a bichinha e a colocou sobre a pia. Pôs água numa panela para ferver e foi até seu quarto.

Quando a água ferveu, fez um café e bebeu!

Pegou duas camisas velhas e preparou um ninho em um pequeno caixote, colocando neste a galinha. Voltou ao quarto e pegou a caixa de sapatos que serve de "farmacinha" para procurar um frasco que havia ali e ele sabia tratar-se de um poderoso ungüento que a Vovó Janaína lhe deixara como herança, dizendo-lhe ser uma poção milagrosa que a bisavó dela trouxera da África, ao ser capturada pelos guerreiros bantos e vendida a uns portugueses que vinham para as terras do Brasil.

Por sete dias Lui tratou do ferimento e alimentou a ave no bico, dando-lhe, inclusive, papa de milho,"mingau de cachorro", rapadura ralada, mel e até água de coco. No décimo terceiro dia o corte do pescoço era apenas um sinal, pois cicatrizara completamente e ela já ousava sair do ninho.

A ave recuperara a cor e andava pela casa atrás do seu benfeitor e a brincar com o Morcego, entre um cacarejo e outro.

Uma noite de sexta-feira, num dia treze de agosto, lua cheia, céu estrelado, Lui acordou com uma voz feminina que chamava por ele:

Voz - Acorde, Lui! Preciso falar contigo! Acorde!

Apesar de nascer cego, naquele momento Lui tem certeza que enxergou muito bem as feições e o corpo daquela que o acordara.

Era uma lindíssima mulher. Cabelos longos e lisos, olhos azuis, pele negra e um sorriso encantador! Ela lhe disse, pedindo que prestasse bastante atenção ao que ouviria, pois esta noite seria especial para ele e muito importante para a humanidade:

Voz - Meu nome é Akilah Zhenga e sou uma deusa africana. Fui Rainha do meu povo e por causar inveja à Rainha de uma tribo inimiga, fui raptada por seus guerreiros e, enfeitiçada, fui transformada na galinha preta que você salvou a vida. Seguindo meu destino, fui trazida para a Bahia num navio negreiro e acabaria imolada naquele ebó se o destino não o colocasse em meu caminho! Agora, graças ao seu enorme coração, terei a oportunidade de continuar vivendo. Embora seja uma Deusa, só posso voltar a ter forma humana quando invocada por você!

Lui - E se a invocar, poderemos conversar como agora?

Akilah - Claro! Mas apenas você me verá, ninguém mais!

Lui - Mas eu sou cego!

Akilah - Nos momentos em que me invocar, enxergará não só a mim como tudo que esteja à sua volta, enquanto eu permanecer ao seu lado!

Lui - Se tiver gente por perto, como vou falar com você?

Akilah - Nós conversaremos e ninguém nos escutará... também não perceberão que você fala com alguém!

Lui - Isso é maravilhoso, Akilah!

Akilah - Prepare-se para o mais importante!

Lui - Mais importante do que conversar contigo?

Akilah - Sim, Lui! Mais importante pois você foi o escolhido para defender a Terra e os homens das suas mazelas e desgraças!

Lui - E-eu? E como farei isso, Akilah?

Akilah - Ao pronunciar a palavra mágica, "OEOXI" ( Pronuncia-se Oeochi), você se transformará em um superherói...

Lui - Um Superherói cego? Hahhahahhahahahhaha!

Akilah - Você nunca leu histórias em quadrinhos, meu rei?

Lui - Não, amiga... eu nasci cego! Hahahhahahahhahahahhaha!

Akilah - Bem, há o Demolidor, Doutor Meia-Noite, Doutora Meia-Noite e até o Takion, que já foi cego e recuperou a visão. Se procurarmos é possível que encontremos mais alguns superheróis cegos!

Lui - Bem interessante!

Akilah - E tem mais... eu o transportarei para viver suas aventuras, em nome da lei, da ordem e da justiça!

Lui - É? E como fará isso?

Akilah - Transformando-me numa galinha voadora gigante e você viajará montado sobre meu dorso!

Lui - Tá ficando interessante! Hahhahhahahahhahahhha!

Akilah - Quando você pronunciar a palavra mágica, eu me transformarei numa galinha gigante e você ganhará os poderes de alguns deuses africanos!

Lui - Deuses africanos? Não sei nada sobre esses Deuses!

Akilah - "OEOXI" são as iniciais desses Deuses: Oxalá, o Senhor da Criação e que defende a paz e a ordem;
Exu, Senhor do Bem e do Mal. Está em todos os locais e fala todas as línguas. É a própria comunicação. É o Orixá da inteligência, do bom humor, dos amantes da vida e da boa mesa, das cores e odores...

Lui - Esse aí tem muito a ver comigo! Hahhahahhahahahhah!

Akilah - É mesmo, mas deixe-me continuar! O outro "O" é de Ogum, o Orixá da guerra, divindade que forja o ferro e o transforma em instrumento de luta. Protege os filhos das demandas e dos perigos do dia-a-dia;
Xangô, o Orixá da justiça, corrige injustiças e protege contra as catástrofes. É autoritário, severo, líder, mandão, político e sempre se dá bem nos negócios. Nunca acha que está errado. O "I" é de Iansã, Senhora da Alegria e dos Ancestrais. Transporta os mortos do Ayê (Terra) e Orum (Céu), fazendo-os nascer numa outra
vida. É o Orixá que protege contra os desastres e acidentes. Dá coragem e impulsividade a seu filho. Tem mais algumas coisas sobre esses Deuses, mas não interessam no momento!

Lui - Como é que pode ser isto, Akilah?

Akilah - Nunca duvide das forças do Universo, Lui!

Lui - Mas eu não sei se quero isso, Akilah!

Akilah - Você não pode fugir do seu destino, Lui! Você foi escolhido para ser o mais novo defensor dos fracos e oprimidos! Esta é sua missão a partir de hoje, Lui!

Lui - Eu terei um uniforme como o daqueles superheróis dos Quadrinhos?

Akilah - Claro! Ao pronunciar a palavra mágica, suas roupas se transformarão num uniforme de superherói!

Lui - E como voltarei a ser eu mesmo?

Akilah - Acabada a missão, você novamente pronuncia a palavra mágica e reaparecerá no lugar onde estava antes, vestido com suas roupas!

Lui - Caramba!

Akilah - Só falta uma coisa para que eu possa, desta vez, ir embora!

Lui - Que coisa é essa?

Akilah - Escolher o nome desse superherói! Alguma sugestão?

Lui - Que tal, "Capitão Braille"?

Akilah - Já tem "Capitão" demais nas Histórias em Quadrinhos!

Lui - Humm! Super... super Braille?

Akilah - Não gostei, embora fosse uma linda homenagem ao Louis Braille, né?

Lui - É... tá ficando difícil!

Akilah - Posso dar um pitaco?

Lui - Claro, minha Deusa!

Akilah - Que tal... Super Blind?

Lui - "Super Blind"? Que diabos é "Blind"?

Akilah - Ora, ora, Lui! Blind quer dizer, "cego", em inglês!

Lui - Ah, é? Acho que fica porreta!

Akilah - Porreta? Que é isso?

Lui - Porreta quer dizer bacana, legal, ótimo, perfeito... aqui na Bahia, Akilah!

Akilah - Ah! Bem, Lui... tenho que ir!

Lui - Não se vá! Ainda é cedo! Fique mais um pouco!

Akilah - Hoje não posso, mas sempre que chamar por mim, eu aparecerei! Basta chamar meu nome completo, "Akilah Zhenga"!

Lui - Está bem! Até mais, Akilah!

Akilah - Até mais, Lui... e não esqueça... você agora é o Super Blind e deve atender a todo grito de socorro!

Lui - Se esse é meu dever e missão, estou pronto!

Akilah - Fui!

Da mesma forma que apareceu, Akilah sumiu na noite! Lui ficou ainda um tempo acordado, mas foi vencido pelo sono.

E assim nasceu o Super Blind, o herói de bengala!

FIM

Super Blind, em... De cego e de louco, todos nós temos um pouco! (Série)


Luís Campos (Blind Joker)
Super Blind, O Herói de Bengala.

Mais inteligente que uma loura... mais ranzinza que uma sogra... mais veloz que o Rubinho... mais forte que o Maguila e mais cego que o Mister Magoo!


Narrador - Ao sol do meio-dia, numa praça qualquer de uma dessas lindas cidades deste maravilhoso País, uma multidão de curiosos cerca um poste de iluminação pública cujas luzes estão acesas, olhando para um cara que, sentado na parte superior do poste, ameaça:

Maluco - Vou me jogar! Eu sou um passarinho! Quero voar!

Narrador - A turba enfurecida grita:

Turba Enfurecida - Se joga!... Se joga!... Se joga!...

Narrador - No entanto, a voz fraca de uma alma bondosa, fã daqueles programas do "Chaves", sobrepõe-se às demais:

Alma Bondosa - Quem poderá nos ajudar?

Narrador - Neste momento, uma grande sombra projeta-se sobre a praça. Os curiosos, que não ouviram a televisão falar em eclipse para aquele dia, amedrontados, olham para cima e alguns exclamam:

Curioso Bobo 1 - Será um avião?

Curioso Bobo 2 - Será um cometa?

Curioso Bobo 3 - Será um urubu gigante?

Curioso Bobo 4 - Será o Benedito?

Curioso Atento - Não! É uma grande galinha preta voadora!

Curioso mais Atento Ainda - E tem um cara de óculos escuros montado no dorso da bicha!

Narrador - Ao perceberem que a ave com seu ilustre passageiro sobre o dorso irá pousar, afastam-se deixando um espaço numa das áreas gramadas da praça que acabaram de pisotear, apesar da pequena placa que dizia, "Não pise na grama, imbecil!". Assim que a ave pousou, os curiosos exclamaram em coro:

Coro dos Curiosos - Ooooh! Quem diabos são vocês?

Narrador - A grande galinha preta soltou um "có-có-ri-có" compatível com seu tamanho e seu ilustre passageiro, até agora desconhecido por estas paragens, disse-lhes sorrindo:

Super Blind - Eu sou o Super Blind e, a partir de hoje, estarei sempre alerta contra as desigualdades sociais, estradas esburacadas, jogos bancados pelo governo, mensalões, companhias telefônicas, seguradoras e de saúde privada, senhas e filas do INSS, o péssimo atendimento do SUS, convocações extraordinárias imorais
do Congresso, marmeladas e falcatruas políticas e a bandidagem em geral!

Coro dos Curiosos - Fiuiiiiii uuuuuuuuuuuuu fiuiiiiiiiiii uuuuuuuuu plac plac plac plac plac plac

Super Blind - Obrigado, obrigado! Em caso de perigo é só me chamar!

Narrador - Neste momento, uma voz feminina (Só podia ser!) eleva-se, exclamando:

Curiosa - E como faremos isso, Seu Super Blind?

Super Blind - Apenas gritem meu nome e onde eu estiver, ouvirei o chamado!

A Mesma Curiosa - Por falar nisso, Seu Super Blind... E o cara que está ali no poste?

Coro de Curiosos - Oooooh!

Super Blind - É mesmo! Havia esquecido do sujeito! Vou até lá!

Narrador - O Super Blind pegou sua "BU" (Bengala de Utilidades), armou e, batendo com ela no chão, dirigiu-se ao local que pensava estar o carinha em perigo.

Coro de Curiosos - Ooooh! Ele é cego!

Um Curioso Politicamente Correto - Cego não... Deficiente visual!

Um Curioso Caridoso - Oh! Super Blind, você está indo para o lado errado! Deixe-me ajudá-lo!

Super Blind - Obrigado meu caro curioso... Ainda não aprendi a lidar com meus superpoderes! Deixe-me segurar em seu braço!

Curioso, Curioso - Assim você se sente mais seguro, Super Blind?

Super Blind - Todo Deficiente Visual se sente mais seguro pegando no braço ou no ombro de quem o guia. Nada de tentar segurar o cego!

Curioso - É... Tem lógica!

Narrador - O Curioso então conduziu o Super Blind até o poste sobre o qual estava o louco. Assim que o Super Blind soube que estava junto ao citado poste, olhou para cima (Pra ver o quê?!) e, tirando uma gilete da sua "Bengala de Utilidades", mostrou-a ao doido e gritou-lhe com sua voz potente, porém ameaçadora:

Super Blind - Se você não descer imediatamente, eu corto esse poste!

Narrador - O maluco ao ver a gilete na mão do Super Blind, gritou de volta:

Maluco - Nãooooo! E - eu só estava querendo voar, seu moço! Por favor, não corte o poste... Já estou descendo!

Narrador - Assim que o cara pisou no chão, a multidão de curiosos explodiu em apupos, palmas e gritos de alegria:

Coro de Curiosos - Fiuiiiiii uuuuuuuu fiuiiiiiii uuuuuu fiuiiiiii uuuuuu plac plac plac plac plac viva viva viva Salve o Super Blind! Salve! Salve! Salve!

Um Curioso Desatento - M-mas ele está em perigo?

Um Curioso que estava ao Lado desse Aí - Deixa de ser besta, homem!

Narrador - Assim que o maluco desceu, uma viatura policial parou e desta desceram três "meganhas" que foram distribuindo borrachadas entre a multidão de curiosos e, com algumas bicudas e sopapos, pegaram o maluco pelo pescoço e o jogaram na mala da viatura. Com a sirene gritando "uôn uôn uôn uôn", saíram em disparada.
Alguns curiosos espertos, evadiram-se do local assim que viram a viatura parar na praça... Quem ficou, apanhou! Mas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos! Nosso Super herói, que, apesar de super não é bobo, escondeu-se atrás do poste até que acabasse a confusão e agora, despedia-se da multidão:

Super Blind - Missão cumprida! Vou em busca de novas aventuras! Alguém, em algum lugar, poderá precisar dos meus préstimos!

Curiosa Loura - Préstimos? O que será isso?

Coro da Multidão - Valeu meu rei! Fiuiiiiii uuuuuuuu fiuiiiiiii plac plac plac plac plac

Narrador - Então, guiado pelo mesmo cara de antes, Super Blind foi levado até onde estava Akilah, sua companheira de aventuras e, montando em seu dorso, saudou a todos:

Super Blind - Eu vou, mas deixo um aviso à rapaziada que gosta de mutreta: Super Blind está de olho em vocês... Cuidado comigo!

Narrador - Dizendo isso, Super Blind falou para Akilah:

Super Blind - Aiôôôô, Akilah... Para cima!
Narrador - Então Akilah levantou vôo e logo ambos desapareceram no céu!

FIM

Super Blind em... Eta Vidinha Difícil! (Série)


Luís Campos (Blind Joker)

Super Blind, O Herói de Bengala.

Mais inteligente que uma loura... mais ranzinza que uma sogra... mais veloz que o Rubinho... mais forte que o Maguila e mais cego que o Mister Magoo!


Narrador - Lui Macpos, após seu desjejum, como habitual, fazia seu "pumpuzinho" lendo uma revistinha do "Blind Kid, o herói do Agreste", seu cowboy predileto, com o short arriado até o pé. Assim que o "barro" caiu, o fedor impregnou o ar, causando prejuízo à camada de ozônio. Nem o Lui agüentou:

Lui - Zorra! Tô podre!

Narrador - De repente, seu ouvido ultra-sônico captou uma voz feminina pedindo socorro. Como todo super-herói que se preza, disse a palavra mágica:

Lui - Oeoxi!

Narrador - Imediatamente transformou-se no audaz Super Blind e, saindo ao quintal de casa, montou em Akilah que já o esperava, também transformada numa imensa galinha voadora. Morcego, o cachorro de Lui, nestas horas, esconde-se sob a cama e fica uivando!

Super Blind - Aiôôôô, Akilah... Para cima!

Narrador - Akilah, com nosso super-herói sobre seu dorso, alçou vôo e ganhou as alturas. Voaram com a velocidade do Schumaker, pois se voassem com a do Rubinho, quando chegassem ao seu destino, certamente não salvariam ninguém... Como nas histórias em quadrinhos, no quadro seguinte, digo, no segundo seguinte, estavam no local de onde vira o chamado. Akilah pousou num grande pomar e o Super Blind desceu das suas costas perguntando:

Super Blind - Quem precisa dos meus préstimos?

Narrador - Uma voz meiga e dengosa respondeu-lhe:

Voz Meiga e Dengosa - Fui eu quem o chamou, Super Blind!

Super Blind - Em que posso ajudá-la, doce pequena?

Doce Pequena - M-meu gatinho, Super Blind!

Super Blind - Seu gatinho? O que houve com seu gatinho, donzela?

Donzela - Ele subiu naquela árvore e não sabe como descer!

Super Blind - E por que você não subiu na árvore para tirá-lo de lá, belezura?

Belezura - É que papai diz que pode ser perigoso!

Super Blind - Hum! Tudo bem! Deixe comigo, boneca!

Boneca - Você vai salvá-lo, não vai, Super Blind?

Super Blind - Claro! Mas preciso de sua ajuda, minha linda!

Linda do Super Blind - É só dizer o que tenho que fazer, Super Blind!

Super Blind - Leve-me até a árvore onde está o gatinho, fofa!

Narrador - Fofa, segurando o Super Blind pelo braço, venha!

Super Blind - Por favor, deixe que eu seguro em seu ombro, garota!

Garota - Está bem, Super Blind!

Narrador - O Super Blind foi conduzido até o tronco da árvore que o gatinho havia subido. Durante o trajeto percebeu que a moça tinha o ombro "forrado", isto é, não era daqueles que são "osso-puro", o que lhe dava a certeza que a menina era gordinha. Assim que chegou, subiu pelo tronco e, guiando-se pelos miados do
bichano, alcançou o galho no qual estava o animalzinho. Segurou-o delicadamente, mas não tanto, pois super-herói não pode se dar a esses luxos, o enrolou em sua capa e desceu da árvore. Ao chegar embaixo, a moça o abraçou, deu-lhe um beijinho no rosto e suspirou:

Moça - Obrigado, meu herói!

Super Blind - De nada, mocinha... Super-herói é pra essas coisas mesmo!

Narrador - Nosso herói desembrulhou o gato da sua capa vermelha e o entregou à mocinha.

Mocinha - Oh, meu gatinho! Como posso retribuir-lhe o favorzinho, Super Blind?

Super Blind - Deixando-me usar o sanitário, dona!

Dona - Tá assim precisado?

Super Blind - É que ontem comi um caruru na barraca da Filó e ela abusou da castanha, querida!

Querida - Eu entendo! Venha, pegue em meu ombro que vou guiá-lo até o banheiro!

Narrador - Super Blind novamente segurou naquele ombro de seda. Ao chegarem ao WC, a moça abriu a porta,
acendeu a luz e disse ao nosso herói:

Moça - À esquerda está a pia e após esta o vaso! Fique à vontade! Vou fazer um chá de banana verde pra você!

Narrador - Super Blind trancou a porta e disse a palavra mágica, voltando a ser o Lui Macpos e encontrar-se
na mesma situação em que estava antes de atender ao pedido de socorro da garota... Até a revistinha do Blind Kid reapareceu em sua mão. Procurou onde ficava o papel higiênico e descobriu que este estava à direita do vaso... de quem senta! Meia hora depois, aliviado, Lui pronunciou a palavra mágica e voltou a ser o Super Blind e foi cuidar da higiene pós-pumpum! Achou a torneira, lavou as mãos, procurou a toalha, enxugou as mãos no traje, ajeitou os óculos escuros, abriu a porta e... o fedor tomou conta da casa! Seu superolfato não o enganara... Estava podre mesmo! Deu um tempo e chamou a menina:

Super Blind - Menina! Menina!

Narrador - A moça chegou ao seu lado, prendeu a respiração, apagou a luz do banheiro e disse-lhe:

Menina - Venha, Super Blind! O chá já está pronto e vai segurar seu intestino!

Super Blind - Que bom! Dor de barriga em super-herói não está em nenhum gibi! Ahahahahahahahahah!

Menina - É verdade!... Nem nos desenhos animados! Hahahahhahahah!

Narrador - E assim, sorrindo, a mocinha o conduziu até uma mesa e colocou a mão do Super Blind no espaldar de uma cadeira. Ele sentou, puxando a cadeira mais para frente e tateou com cuidado a mesa até encontrar a xícara. O chá cheirava a cravo e banana e tinha um sabor agradável! Super Blind, espertamente curioso, disse:

Super Blind - Muito obrigado, Senhorita...

Senhorita - Lara Mara!

Super Blind - Que interessante!

Lara Mara - O que achou interessante em meu nome?

Super Blind - A coincidência!

Lara - Que coincidência? Não entendi!

Super Blind - É que tenho um amigo chamado Lui Macpos, entendeu agora?

Lara - Claro! A coincidência das iniciais do meu nome e do dele, né?

Super Blind - Já vi que você não é loura! Ahahahahah!

Lara - Pior é que sou... E legítima! Hahahhahahhaha!

Super Blind - Eu estou só brincando... nada contra as louras... nem morenas... nem negras!

Lara - Eu sei! Eu também, só de sacanagem, brinco com as louras! Hahhahahhahahha!

Super Blind - Ahahahahhahahhahah! Lara, o papo está ótimo, mas tenho que ir... O dever me chama!

Lara - É cedo! Tome mais uma xícara de chá! Vai lhe fazer bem!

Super Blind - Já que você insiste e a companhia é agradável, tomarei mais uma xícara!

Lara - Que bom, quero dizer, obrigada!

Super Blind - Assim que acabar irei embora!

Lara - E quando o verei de novo?

Super Blind - Quando precisar de mim é só chamar!

Lara - Farei isto! Tomara que o Pipo suba novamente numa árvore! Hahahhahahhahah!

Super Blind - Ahahahahahah! Você esqueceu uma coisinha!

Lara - Que coisinha?

Super Blind - "Gato escaldado tem medo de água fria!" Ahahahahaha!

Lara - É mesmo! Hahhahahhahhaha!

Super Blind - Bem, vamos lá!

Narrador - Lara Mara colocou-se diante do Super Blind que segurou em seu ombro e foi levado ao quintal aonde AKilah o esperava. Akilah abaixou-se e nosso herói subiu em suas costas.

Super Blind - Que bairro é este, Lara Mara?

Lara - Nós estamos em Itapuan... Perto da Lagoa do Abaeté!

Super Blind - Certo! Até mais ver, Lara... Foi um prazer conhecê-la!

Lara - O prazer foi meu, Super Blind... Espero revê-lo breve! Até outro dia e grata pela força!

Super Blind - Aiôôôô, Akilah... Para cima!

Narrador - Lara Mara ficou olhando o Super Blind e sua galinha gigante voadora sobrevoar os coqueiros de
Itapuan, até que desaparecessem na linha do horizonte!

FIM

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Minhas Férias em Nazaré - Parte I (Crônica)

Luís Campos (Blind Joker)

As reminiscências da Odetinha e do seu irmão me fizeram lembrar as férias que passava em Nazaré das Farinhas, cidade do recôncavo baiano, na qual nasci, mas morei apenas uns dois anos, pois vim ainda pequeno com meus familiares residir em Salvador.

As viagens, das quais lembro claramente, já eram uma "viagem". Elascomeçaram, salvo engano, quando eu tinha uns cinco anos. Como meu pai era funcionário público, alguns dos meus irmãos mais velhos nasceram em cidades do interior da Bahia. Nesta época, embora toda a família residisse em Salvador, meu pai viajava semanalmente a Nazaré, onde além de trabalhar, era vereador. Lembro que ele ia para lá na segunda ou terça, retornando na sexta ou no sábado e isso até 1965, quando aposentou-se e ficou definitivamente em casa.

Em Nazaré eu ficava na casa de Vanda, minha madrinha, ou na casa de Leonor, uma afilhada dos meus pais. As duas disputavam quem iria me hospedar: eu devia ser umagraça, né? (Risos)

Das gratas recordações que tenho destes dias em Nazaré das Farinhas, estão as fériaspassadas na casa de Leonor. Nós dormíamos no sótão. Era muito legal ficar lá de cima olhando para a cidade cortada pelo Rio Jaguaripe, tanto de dia, quanto pela noite. Lá de cima eu via a Ponte da Conceição e a da Muritiba que ligavam os dois lados da cidade. Eu ficava fascinado com a passagem dos poucos carros, das carroças, dos aguadeiros, dos cavaleiros e amazonas, dos burros e jegues com seus "panacuns ou caçuás" cheios de cargas diversas, de gente andando pra lá e pra cá e, o mais gostoso, a chegada e a partida do trem, com seu apito estridente e inesquecível.

Lembro de haver presenciado uma das enchentes do Rio Jaguaripe e de ter gostado de ver a agitação que tomou conta dos habitantes locais. Naquela idade não tinhanoção dos prejuízos causados por uma cheia, tudo é festa. As águas revoltas traziam galhos, pequenas árvores, animais mortos, móveis e outras tralhas que não lembro. Quando o rio baixava os moradores faziam a limpeza da lama que o rio deixara nas casas, ruas e calçadas às margens deste. Para mim, sendo criança, era um espetáculo.

Além dessa "diversão", quase todas as tardes subia um morro de barro que ficava numa rua atrás da casa de Leonor para descê-lo sentado sobre uma pequena tábua. Eu chegava em casa com o short da cor de barro. Outra maravilha eram os pirulitos de caramelo que a mãe de Leonor fazia, chamados de "chorêtes".Quando a calda do caramelo estava "no ponto", era despejada em duas formas de chumbo que eram prensadas para dar os formatos que se queria: boneco, porco, chupeta, elefante, flor, corneta, coelho, cachimbo, rinoceronte... e outros que não lembro. Os sabores também variavam: laranja, morango, goiaba e jenipapo.Depois de "duros", eram passados no açúcar cristal. Lembro das deliciosas cocadas de goiaba e coco; das balas de jenipapo e goiaba; das rapaduras com coco e das bolachinhas de goma. Haja apetite... e olho grande.Quase toda a "produção" ia para as "vendas" (denominação dada aos pequenos armazéns nesta época).

Tinha também as brincadeiras noturnas: tubarão (dono do passeio); roda (ciranda); pega-pega; chicotinho queimado; batalhão... entre tantas cuja idade faz esquecer.

Vez por outra me armava de uma vara fininha e dizia que ia pescar no Jaguaripe que passava defronte da casa de Leonor e, nesta parte, era bem raso. Nunca pesquei nada,apenas alimentava os peixes com as minhocas. Mas lembro que eu mesmo fazia o anzol com um alfinete que Dona Lourdes me dava. Nestas ocasiões eu aproveitava para, "sem querer", molhar-me bastante, sendo "obrigado" a tomar um banho nas águas mornas do rio. Mas a culpa era dos peixinhos que, "ao pularem na água", me molhavam. Leonor apenas sorria e me levava pro banho.

Também gostava de ir à feira com ela: comia um monte de guloseimas que ela comprava pra mim. Perto da casa dela havia uma quadra com algumas "vendas" e eu ia pracomprar besteiras com as moedas que ela me dava. Um dos seus irmãos fazia pequenos caminhões de madeira que eram muito bacanas de brincar, pois tinham um varão que saía da carroceria, logo atrás da cabine e tinha um pequeno volante que comandava o eixo dianteiro permitindo as manobras e curvas. Eu sempre estava "viajando"pelas estradas deste nosso rincão, carregado de pedras que "eram" mercadorias diversas, isto é, açúcar, farinha, fumo, café, dendê e "algodão".

Minha madrinha Vanda residia do outro lado do rio, no bairro do Batatan.Ela era solteira e morava com a mãe, Dona Zozó, uma tia, Dedé, e duas irmãs, Alaíde e Zozó. Quando estava em sua casa, as brincadeiras eram um pouco diferentes daquelas que brincava quando ficava com Leonor.

O quintal era grande e comprido e tinha muitas árvores, principalmente o fruta-pão. Como o tronco deste dividia-se em vários outros, deixando um espaço entre estes, eu brincava ali de maquinista e no meu "trem" imaginava longas viagens pelo interior daBahia. Algumas vezes virava padeiro, fazendo do fruta-pão ainda por formar-se (é comprido, fino e amarelo, antes de virar aquela "bola") de pão. Abria este "pão" e colocava "manteiga" (polpa de fruta-pão podre) e colocava à venda para meus fregueses imaginários, pois sempre brincava sozinho. Suas grandes folhasverde-escuro serviam como dinheiro. Areia era farinha ou açúcar, tijolo em pó virava coloral, pequenos galhos faziam às vezes de carne, outras de aipim. Eu era "dono do negócio" e freguês, ao mesmo tempo. Tudo era mágico para minha fértil e infantil criatividade.

Também pescava camarão num pequeno rio que desaguava no Jaguaripe e passava nos fundos da casa de Zozó, uma das irmãs de minha madrinha que havia casado. Metendo a mão por baixo das pedras conseguia pegar uma meia dúzia de pequenos camarões e levava pra minha madrinha fazer uma "moqueca"... e ela fazia! (Risos)

Este mesmo rio , ali perto, mas onde não havia casas, era largo e tinha um local chamado de "Louro", onde os homens tomavam banho nus.Um pouco mais adiante era o "poço das moças"... e eu e alguns amiguinhos sempre íamos, escondidos pela folhagem, dar uma espiadinha. Infelizmente a maioria das mulheres banhavam-se de calcinhas.

De vez em quando passava uma boiada na frente da casa de minha madrinha. Era um tal de correr gente pra dentro das vendas. Eu ficava na alta janela da casa pra ver osbois passarem, nem sempre obedecendo o aboio dos vaqueiros e ameaçando entrar nas vendas, sendo enxotados pelos fregueses.

Os trilhos da ferrovia passavam bem no meio da rua que ela morava e todos os dias o trem vinha de Jequié pela madrugada e retornava ao meio-dia.Era curioso ver o trem passar na frente da casa, todos os dias, puxado por uma locomotiva e uma outra atrás ajudando a empurrar os vagões. Dizem que era porque uma só não agüentaria puxá-los ao subir uma ladeira que havia no Onha, um dos distritos de Nazaré.

Em Nazaré ficava uma das oficinas de manutenção dos trens e eu gostava de olhar aquele monte de rodas, locomotivas e vagões "aposentados", pedaços de trilho,dormentes e os troles (um retângulo de madeira montado sobre rodas de trem e que era movido pelos homens que iam neles e serviam para realizar pequenos consertos na ferrovia). Perto da dali ficavam a fábrica de dendê e a de tecido. Mais uma festa para meus olhos.

Ao lado da casa de minha madrinha havia uma grande igreja, a qual, para mim, tinha aspecto fantasmagórico. Eu ficava com medo dos "imensos" morcegos que toda noite saíam e entravam em suas torres.
Quando eu urinava na cama e ela me perguntava se fizera isto,dizia-lhe que fora a chuva... como chovia em Nazaré! (Risos)

A tia dela, Dona Dedé, fazia bolachinhas de goma para vender. Eram assadas num enorme fogão a lenha, em grandes bandejas quadradas. Antes mesmo que asbolachinhas fossem ao forno, eu "roubava" algumas e fugia para comer no quintal. Dona Dedé nunca reclamou comigo e ainda me dava algumas já assadas. Doces lembranças!

Alaíde me levava pra escola que ela ensinava e que distava uma légua de sua casa. Lá, enquanto ela dava aula, eu brincava nos arredores da escola, subindo em árvores e comendo ingá. Mas, vez por outra "assistia" às aulas... nunca obrigado.

Muitas vezes, com alguns amigos, acompanhava os aguadeiros até afonte de "água de beber" e os ajudávamos a encher os barris para ganharmos uma "voltinha" no jegue. Além desta folia, a gente subia nos pés de cajus para pegarmos alguns. Na volta eu passava numa espécie de garagem e o senhor que guardava enormes vasilhames de bronze com garapa de cana para fazer cachaça e rapadura, me dava um pouco para levar pra casa e que eu comia com farinha. Uma delícia!

Outro divertimento era andar equilibrando-se sobre um dos trilhos ou então pulando de dormente em dormente. Ver carros de boi, carroças, burros de carga, gente grande e pequena, os aguadeiros e o trem passar, era uma alegria para meus olhos de criança. Ainda lembro os nomes de alguns bairros de minha cidade natal: Cortume, Muritiba, Morugus,Apaga-Fogo, camamu, Cidade Palha, Batatan, Conceição, Pasto da Serra, Volta do Tanque, Caminho dos Remédios, Catiara, Alto do São José, Ladeira Grande e Centro. Algumas vezes ia com minha madrinha ao "Remédio" para tomar banho no rio Jaguaripe. O local era cheio de pedras, o que contribuía para que a diversão fosse mais gostosa e lúdica.

Lembro de haver participado de umas duas procissões de São Roque e Nossa Senhora da Purificação de Nazaré, nas quais, para acompanhar os cânticos e louvores do povo, contava-se com os músicos da Filarmônica Erato Nazarena.
Também comprava muitas miniaturas na famosa Feira de Caxixis que acontece durante a Semana Santa, sendo a maior atração turística da Cidade nesta época e é "armada" na frente do tradicional Mercado dos Arcos (onde se vendia todo tipo de farinha ede tapioca) e na margem do Rio, próximo da Ponte da Muritiba.

Logo em seguida vem a Micareta (espécie de carnaval fora de época) que começa no Sábado de Aleluia e dura três dias.

Não poderia terminar esta crônica sem convidá-los a visitar esta cidade histórica para conhecer seus casarões coloniais, suas igrejas centenárias e suas travessas e becos de casas desalinhadas como se fazia no século XIX. Não esqueça de visitar o monumento "Jesus de Nazaré" e o santuário que fica abaixo deste com suas esculturas feitas em barro, lembrando a via sacra e ornando o caminho que conduz ao Cristo. Também é em Nazaré que está o Cinema Rio Branco, um dos mais antigos cinemas da América Latina, ainda em funcionamento, que foi comprado e reformado pelo jogador nazareno, Vampeta.

Nazaré também é pródiga nas artes e na literatura, mas isto é tema para uma futura crônica.
Continua...